A situação atual da cidade de Duque de Caxias

Caxienses: qual é a de vocês?

Parque Vila Nova (penicão)

Parque Vila Nova

Por Lorram Paiva Corrêa – Imagine você, morador de qualquer cidade mediana, num ônibus. Você sai da cidade do Rio de Janeiro, atravessando um rio – na verdade, uma galeria de esgoto a céu aberto. Pouco depois, você encontra, à sua esquerda, uma imensa piscina de esgoto, ladeada por casebres e puxadinhos. Lixo acumulado em paredes e esquinas. Usuários de crack abordando motoristas, à procura de algo para fomentar seu vício. Desembarca num projeto de terminal rodoviário, sujo e fedendo a urina, cujos arredores são repugnantes. Agora, imagine esta cena à noite: boa parte dos pontos de luz está queimado ou funciona mal. Pega um outro ônibus num local estranho, mal iluminado e vizinho a uma favela perigosa. Se a primeira impressão é a que fica, sua impressão é a pior possível. A vontade é de sair do local e nunca mais voltar.

Seja benvindo à oitava cidade mais rica do país: Duque de Caxias.

Essa cena que eu descrevi é a pontinha do iceberg da situação vivida por nossa cidade. Tudo bem, PIB não é proporcional à qualidade de vida. Assim fosse, São Paulo seria a melhor cidade do país para se viver. O que eu digo é que Duque de Caxias, queira ou não queira, já é uma cidade importante no mapa econômico nacional. Só que seus administradores e legisladores, historicamente, representam o que há de mais ultrapassado, de mais anacrônico, de mais nocivo à democracia. Nada melhor personifica a nossa liderança política típica que o saudoso Natalício Tenório Cavalcante de Albuquerque, que com sua capa preta e sua metralhadora Lurdinha, mandava, desmandava e escrachava em Caxias, ao mesmo tempo que se legitimava pelo seu prestígio por parte da população pobre e migrante, através do clientelismo e da construção de sua imagem como um político com “cheiro de povo”, embora de povo, há muito tempo, só tinha o cheiro – e olha lá. Lembra algo hoje?

Pois é. Uma economia próspera e em crescimento e políticos que se legitimam através da exploração da miséria e da boa-fé do povo. Um dia, esse paradoxo iria cheirar mal. E o cheiro está começando a ficar insuportável (e não falo somente do lixo nas ruas de nossa cidade).

Outra explicação para o buraco negro que separa Duque de Caxias das cidades em situação econômica e populacional análoga a ela talvez resida na própria construção da nossa cidade quanto à sua geografia e formação populacional, que é comum às suas vizinhas. Nossa cidade, como todos sabem, é composta por sua matriz, em grande parte, de migrantes pobres vindos de várias partes do país. Pouquíssimas gerações separam esses migrantes da nossa população atual. E esses migrantes se instalaram em razão de um grande referencial: a cidade do Rio de Janeiro. Imaginem: uma população migrante, pobre e desamparada, que tentava ganhar a vida na cidade grande e só punha os pés em Caxias para dormir. Que identidade essa “cidade” construiu, à sombra de uma das mais famosas cidades do mundo? Como você vai lutar por um lugar pelo qual você não se identifica?

Por essa época, Duque de Caxias ganhou um grande apêndice econômico, a Refinaria Duque de Caxias (REDUC) e, de brinde, a vedação do direito de escolher seu prefeito por um bom tempo, uma vez que, em nome de uma suposta “segurança nacional”, os milicos escolhiam a dedo outros milicos para tentar governar essa triste amálgama de gente carente. Vale se lembrar que a mão-de-obra especializada (qualificada, bem diferente do contingente populacional caxiense) morava bem longe daqui – e com razão. Caxias era a cidade onde as galinhas ciscavam para frente e se matava gente que as roubavam (vide Pedro Capeta, Mão Branca e congêneres). Após a abertura, finalmente voltamos a ter o direito de escolher nossos governantes… Porém, decepção após decepção, a impressão era a de que Dallas City era uma terra sem futuro.

Até que…

Polícia Federal na casa de ex-prefeito

Polícia Federal na casa de ex-prefeito / Foto: IG

Chegou um senhor grandalhão e de fala grossa, de maneiras más e fama igualmente, cuspia e arrotava em público para lembrar a sua origem humilde e comum a de outros centenas de milhares de conterrâneos. Seu “cheiro de povo” sublimava sua aliança política com o então prefeito, um médico idoso e doente que não governava mais nem seu aparelho digestivo. Ao chegar ao governo, tenta colocar na cidade algo que lembra civilização: limpa ruas, ordena camelôs, manda guardas orientarem o trânsito e, mais tarde, asfalta centenas de ruas (na maioria das vezes sem redes coletoras de esgoto, pois “é do Governo do Estado”) e constrói dezenas de pracinhas coloridas que fazem qualquer urbanista vomitar. Investimentos chegam, dando a Caxias um ar mais digno e, de quebra, mitigando um pouco a má fama que a cidade sempre teve.

Com o sucesso e a reeleição, o poder subiu à cabeça do cidadão, e este começou a fazer muita besteira. Não fez seu sucessor e, quando voltou, seu estilo de governar não correspondia mais às necessidades da cidade e da sua população. Muita coisa mudou nesse meio tempo. A população da nossa cidade, de modo geral, já não é aquela população miserável de anos atrás. O poder aquisitivo melhorou (a famosa “classe C” do apedeuta), novas expectativas sobre o que ela quer para seu futuro surgiram. Mais do que ter “cheiro de povo”, é necessário que o governante se adapte às mudanças e às vicissitudes. O que ele fez no passado não vai preservar seu prestígio, principalmente em relação ao eleitor mais jovem. E o pior aconteceu: Caxias voltou a ser a terra da vergonha – uma cidade cuja receita prevista para 2013 é de R$ 2 bilhões, vizinha à nova Cidade Olímpica, que não consegue nem recolher o lixo e limpar as ruas. Algo inverossímil, mas é a realidade que nós duquecaxienses vivemos e sentimos.

Vítimas das chuva em Xerém

Vítimas das chuva em Xerém / Foto: UOL Notícias

Dizem que o povo é burro, mas regularmente ele dá seus recados. Lembre-se desse cara que eu citei nos parágrafos acima. Há cerca de 10 anos atrás, era Deus no céu e “o cara” na terra. Confesso, eu era fã dele. Quatro anos de desgoverno foram suficientes para transformar o dito cujo numa piada pronta, um ser que merece ser punido e ridicularizado pelos desmandos sucupirescos inflingidos à nossa Caxias. Se houve algum aprendizado, foi o de que o povo parece ter aprendido a não mais respeitar quem lhe trata mal. Elegemos novos vereadores e um prefeito que aparenta ter um perfil mais técnico e humano. No vai e vem, coisas escabrosas são descobertas quando mais se abrem os arquivos da Prefeitura. A cidade saiu do estado de calamidade pública, mas é necessário muito mais empenho para os próximos meses e anos – as coisas ainda estão bem longe de se tornarem satisfatórias, como o próprio atual prefeito reconhece. Mas as coisas só vão mudar realmente quando nós, cidadãos, passarmos a descartar o papel de submissos para se tornarmos protagonistas do destino do lugar em que vivemos.

A escolha é única e exclusivamente nossa. Não vamos enterrar anos de descaso e desmandos apenas num digitar de urna. Mais do que nunca precisamos escolher em qual das duas Duque de Caxias queremos viver: ou numa cidade rica, próspera e dinâmica ou numa cidade condenada à pobreza, ao atraso e à ignorância.



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