O Sucesso da Fliporto – por Arnaldo Niskier
- quinta-feira, 2 dezembro 2010, 11:43
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Não faltou criatividade à Fliporto, realizada este ano na ensolarada cidade de Olinda (Pernambuco), aliás considerada, com muita propriedade, “uma Jerusalém dos trópicos”, tamanha a sua luminosidade.

Festa Literária e cultura Judaica / Foto: Reprodução
Com vários espaços muito bem montados, pela organização dirigida pelo escritor Antonio Campos, o público pôde se deliciar, por exemplo, com a “Iídiche Shul”, reprodução de uma escola judaica, onde eram contadas muitas histórias sobre a presença dos judeus no estado de Pernambuco. Desde o período holandês até os nossos dias.
A escritora Clarice Lispector, que nasceu na Ucrânia, passou toda a sua adolescência em Recife, que amava como se lá tivesse nascido. Estudou na Escola Israelita e jamais deixou de cultuar, sobretudo na sua apreciada obra, os valores nos quais foi formada. A apresentação de “O olhar judaico na obra de Clarice Lispector” arrancou aplausos da enorme plateia do “Espaço Literário”, onde foram realizadas as sessões principais.
Uma das maiores atrações da Fliporto, a nosso ver, foi o dramático depoimento da escritora austríaca Eva Schloss, sobrevivente de Auschwitz. Apresentada e inquirida por Geneton Moraes e o acadêmico Moacyr Scliar, ela recordou seus terríveis pesadelos: “Preferi colocar no livro “A história de Eva” tudo o que vi e sofri, sem jamais perder a minha fé original.” Mas faz um alerta: “Apesar do Holocausto e da insanidade que o cercou, ainda existe antissemitismo na Europa. Por isso, dedico a minha vida ao trabalho de educar.”
A mãe de Eva Schloss casou-se, depois da Guerra, com Otto Frank, pai da jovem Anne Frank, autora do famoso Diário que se tornou um bestseller. Conhecemos em Amsterdã a casa em que a menina foi confinada, durante o conflito mundial, passando mais de dois anos sem poder sair e vendo apenas uma nesga do céu azul da capital holandesa. Uma experiência dramática.
Eva esclareceu, diante de uma pergunta do escritor Moacyr Scliar, que passou muitos anos, depois do conflito, até que pudesse se abrir diante dos filhos. Quem contou a eles as misérias da Guerra foi o padrasto Otto Frank, pois ela se sentia completamente reprimida diante do sofrimento.
Como a temática proposta pela direção da Fliporto comportava, houve também discussões esclarecedoras sobre a presença judaica em Pernambuco, nos séculos XVI e XVII, depois das perseguições sofridas na Península Ibérica. No ano de 1645, como explicou o historiador Ronaldo Vainfas, no livro “Jerusalém Colonial” (Editora Civilização Brasileira), “as ocupações holandesas, que permitiram a liberdade religiosa, criaram oportunidades de negócios para os “judeus novos”, que chegaram a formar uma comunidade estimada de 5 mil pessoas.”
Hoje, é sabido que foram eles que, saindo do Recife, transferiram-se para os Estados Unidos, onde criaram a cidade de Nova Amsterdã, base do que hoje é a gigantesca Nova Iorque. Mas deixaram algumas boas lembranças no Nordeste brasileiro, como a primeira sinagoga construída em nosso território.
Arnaldo Niskier – Doutor em Educação, membro da Academia Brasileira de Letras e presidente do CIEE/Rio
Texto gentilmente cedido pelo Prof. Paulo Pimenta Gomes
Superintendente do Centro de Integração Empresa-Escola – RJ
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